Menu Busca

Comportamento

Dia Mundial da Saúde: após um ano de pandemia, médicos falam sobre mudanças e tendências que vieram para ficar

Para diferentes segmentos da saúde, o aprendizado com a Covid-19 resultou em novos formatos e oportunidades, mas repletos de grandes desafios pessoais e profissionais

 

Falar de saúde com o paranaense hoje em dia, inevitavelmente, será relacionado à pandemia da Covid-19. Neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, o setor tem como principal marca ser o alicerce da sociedade em meio ao grande desafio de uma geração: lutar contra um inimigo silencioso, que nos distanciou e mudou a forma como vivemos em questão de meses.

Mas qual o legado positivo disso tudo que estamos vivendo? Se acompanharmos atentamente dados e pesquisas recentes, é seguro dizer: essas grandes mudanças de hábitos e atitudes podem refletir em uma sociedade de maior prevenção. Comportamentos como vacinação, exames de rotina e até higiene pessoal apresentaram mudanças que podem ser permanentes.

Além disso, a saúde também precisou se adaptar às exigências do distanciamento social; a telemedicina, uma solução que já existia, ganhou ares de protagonismo no atendimento diário de diversos segmentos, e isso não deve mudar tão cedo. De acordo com uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina, a “Pesquisa Conectividade e Saúde Digital na Vida do Médico Brasileiro”, realizada em 2020, 47% dos brasileiros fizeram ao menos uma consulta de rotina na modalidade de tele atendimento desde então.

 

Telemedicina é uma das tendências que pode permanecer no Paraná pós-Covid.

 

Mudanças como essas, inclusive, podem passar a ser parte da nossa rotina, conforme contam especialistas que o De Olho No Mercado entrevistou em todo o Paraná.

 

Fonoaudiologia ganha mais reconhecimento com especialistas atuantes na UTI de Covid

Especialidade que cuida da fala, audição e deglutição, a fonoaudiologia se tornou fundamental no dia a dia dos milhares de brasileiros que estão ou estiveram em uma UTI para tratar o novo coronavírus. Conforme conta Paulo Renato da Silva, fonoaudiólogo especialista em audiologia clínica e diretor clínico do Instituto de Fonoaudiologia de Foz do Iguaçu, a atuação se tornou mais requerida a partir da atenção maior do paranaense devido à pandemia.

De acordo com a pesquisa Ipsos Flair Collection Brasil, realizada neste ano, 88% dos entrevistados em Foz do Iguaçu se disse disposto a pagar, hoje em dia, qualquer preço pela manutenção da sua saúde. “A perda de um familiar – ou a possibilidade disso – fez com que refletíssemos e nos preocupássemos mais com o essencial. O trabalho, o carro e o dinheiro se tornaram menos importantes do que o bem estar da nossa família”, avalia. “Hoje, a saúde está em primeiro lugar e isso faz com que todas as áreas da medicina sejam requisitadas”.

 

“Reinvenção” foi a palavra da vez entre fonoaudiólogos

Paulo avalia que a telemedicina, ao menos na fonoaudiologia, veio para ficar como o “novo normal”. Em Foz do Iguaçu, ele conta que os profissionais se reinventaram, seja com o homecare (atendimento domiciliar) ou pelo tele atendimento. “Na fonoaudiologia, observamos um avanço enorme na procura em Foz. Chegamos ao ponto, inclusive, de ter dificuldade em encontrar profissionais capacitados para os atendimentos, seja hospitalar ou mesmo domiciliar”, detalha.

 

“Hoje, a saúde está em primeiro lugar e isso faz com que todas as áreas da medicina sejam requisitadas” – Paulo Renato da Silva, fonoaudiólogo e diretor clínico do Instituto de Fonoaudiologia de Foz do Iguaçu

 

 

As avaliações auditivas, um dos principais trabalhos do Instituto, também cresceram em número de procura. A principal queixa durante a pandemia, segundo Paulo, tem sido a dificuldade em entender palavras e a baixa audição. “Com mais tempo em casa, as relações com pais e avós também passaram pela identificação de necessidades que, antes, não eram observadas. O problema de audição é uma delas”, avalia.

 

Relação de gastos e receitas com pacientes sofreram grandes impactos

Parte essencial da manutenção do dia a dia de um hospital, a área de controladoria e finanças foi atingida pelo inesperado: uma pandemia que exigiu uma mudança abrupta na quantidade de insumos, leitos e profissionais que deveriam ser disponibilizados nas clínicas e hospitais. Como toda demanda intensa e imediata, os custos também sofreram alterações e isso resultou numa queda de receita per capita, pressionando as margens da área da saúde.

“Hoje, materiais, medicamentos e equipamentos para o combate à pandemia estão sujeitos a forte ‘dolarização’ da sua cotação”, pondera Paulo Gustavo Bozz Ferla, gerente de controladoria e finanças da Santa Casa de Ponta Grossa. “No geral, os preços desses insumos acompanharam o IGPM (Índice Geral de Preços Mercado), que está posicionado em +31% no acumulado dos últimos 12 meses. Infelizmente, nossas receitas não receberam reajustes compatíveis com essa realidade”.

A diminuição de pacientes cirúrgicos e eletivos, que trazem mais rentabilidade às finanças de uma instituição de saúde, foram substituídas pelos pacientes clínicos de Covid. Assim, a esperança de melhora do cenário econômico no futuro reside na evolução da vacinação. Desta forma, será possível a retomada permanente de atividades eletivas como consultas, exames e cirurgias.

 

Setor de controladoria e finanças da Santa Casa de Ponta Grossa enfrentou desafios com reajuste de preços.

 

Tendência por procura da palavra “sintomas” cresceu mais de 300% online

Para o segundo trimestre deste ano, a Santa Casa de Ponta Grossa planeja o lançamento de sua plataforma exclusiva destinada à telemedicina. “É uma ferramenta fantástica para a saúde suplementar, muito voltada para os usuários de plano de saúde. Ela aproxima os profissionais de saúde – enfermeiros, médicos e psicólogos, entre outros – dos beneficiários”, diz Paulo.

A medida vem para somar a outras, em boa hora. De acordo com o Google, a busca pela palavra “sintomas” cresceu mais de 300% desde o início da pandemia no Paraná; em todo o estado, Ponta Grossa foi a 3ª cidade no ranking de mais buscas pela palavra.

“Sentimos que a sociedade, em uníssono, reconhece o esforço hercúleo que as Instituições de Saúde dispenderam para acomodar todo um novo fluxo de atendimento de uma doença, até então, desconhecida e com terapêutica não padronizada”, avalia Paulo. “Foi um grande desafio para o qual começa a surgir a esperança de um futuro melhor, principalmente, com o avanço das pesquisas para novos medicamentos e a vacinação”.

 

“Foi um grande desafio para o qual começa a surgir a esperança de um futuro melhor, principalmente, com o avanço das pesquisas para novos medicamentos e a vacinação” – Paulo Gustavo Bozz Ferla, gerente de controladoria e finanças da Santa Casa de Ponta Grossa.

 

 

Dependente de diagnósticos presenciais, oftalmologia encontrou obstáculos e pacientes abandonaram tratamentos

Cuidar da visão é muito difícil à distância, conta o oftalmologista Gianmarco Penteado, proprietário da Oftalmoclínica, em Ponta Grossa. Desta forma, a pandemia da Covid-19 afastou muitos pacientes da prevenção e acompanhamento de problemas que só são possíveis de diagnosticar com exames presenciais.

“A oftalmologia é muito dependente de exames complementares diagnósticos, realizados por meio de diferentes aparelhos”, detalha. “A impossibilidade de sair de casa se tornou um obstáculo e isso pode, também, ter contribuído para o abandono do tratamento de doenças crônicas como a degeneração macular, glaucoma e retinopatia diabética, entre outras”.

 

Oftalmoclínica, em Ponta Grossa, teve dificuldades de diagnóstico sem o atendimento presencial.

 

Outro saldo negativo, conforme Penteado, foi um crescimento expressivo dos casos de miopia em crianças desde março do ano passado. Ele atribui esse fenômeno ao abuso de aparelhos eletrônicos – como tablets e videogames – no período em que passaram em casa, sem aulas e atividades físicas.

“Essa miopia, chamada de acomodativa, precisa ser controlada”, aconselha. “É fundamental que haja um limite no tempo de uso de celulares e tablets pelas nossas crianças”.

Telemedicina na oftalmologia foi voltada à informação

Penteado lamenta que, diferente de outras especialidades, a oftalmologia só funciona praticamente de forma 100% presencial. A telemedicina, neste caso, funcionou de forma mais voltada à informação e orientação, com acolhimento e reeducação dos pacientes. “Os erros de refração – como miopia, astigmatismo e hipermetropia – necessitam de uma consulta presencial. Um simples olho vermelho, por exemplo, pode ser causado por uma infinidade de doenças”.

Dessa forma, a Oftalmoclínica contribuiu com um dado importante e positivo em meio a tudo isso: de acordo com a pesquisa “Intenção de Novos Hábitos de cuidados com a saúde pós-Covid 19”, realizado pelo Centro de Expertise Setorial da Rede Globo, 82% dos brasileiros entrevistados pretendem seguir com hábitos como lavar as mãos constantemente e utilizar álcool em gel.

Nesse período de distanciamento social por conta do alto nível de ocupação das UTIS, Penteado aconselha: “evite coçar os olhos, preocupe-se com a higiene das lentes de contato, lave sempre as mãos e mantenham a esperança de dias melhores”.

 

“A impossibilidade de sair de casa se tornou um obstáculo e isso pode, também, ter contribuído para o abandono do tratamento de doenças crônicas como a degeneração macular, glaucoma e retinopatia diabética, entre outras” – Gianmarco Penteado, proprietário da Oftalmoclínica.

 

 

Dermatologista encontrou desafios limitantes na telemedicina

O Dr. Franck Bobato, médico dermatologista e sócio-proprietário da InPelle Saúde e Beleza, não conseguiu permanecer as atividades durante o período mais rigoroso do lockdown. No que ele cita como um “ano muito desafiador”, ele ainda acredita que a telemedicina precisa evoluir muito para prestar um atendimento médico de qualidade como o presencial.

“[A telemedicina] tem muito a evoluir para ser um serviço médico com mínima qualidade”, diz. “Confesso que contratei uma plataforma para isso e fiz apenas um atendimento nesta modalidade. Me neguei como médico, onde tenho a qualidade do meu atendimento e a relação médico-paciente com pilares absolutos, a manter esta forma de atendimento nos moldes atuais”.

 

A InPelle focou em marketing e relacionamento com clientes durante a pandemia, além da ampliação de serviços prestados.

 

Foco em plataformas de relacionamento com  o cliente

No trabalho com saúde e estética, o Dr. Bobato focou em utilizar as plataformas de conversas e relacionamento para manter o marketing da InPelle, assim como o relacionamento com os clientes. “Nos tornamos, da noite para o dia, um pouco de artistas e apresentadores: fizemos lives  e estamos constantemente aprendendo sobre como trazer e encantar nossos clientes”, conta.

Para manter a qualidade de trabalho durante a pandemia, foi necessário contratar mais colaboradores, tanto na área de limpeza e conservação das instalações, como para o atendimento. A estrutura física da InPelle foi readequada para o distanciamento social e, da mesma forma, os horários de atendimentos.

 

“Nos tornamos, da noite para o dia, um pouco de artistas e apresentadores: fizemos lives  e estamos constantemente aprendendo sobre como trazer e encantar nossos clientes” – Dr. Franck Bobato, dermatologista e sócio-proprietário da InPelle Saúde e Beleza

 

“Aumentamos nosso corpo clínico, com novos profissionais e novas especialidades sendo atendidas na Inpelle”, detalha. “Além disso, consolidamos o serviço de transplante capilar, único em Ponta Grossa, e implantamos a área de Estética e Rejuvenescimento Íntimo, uma nova área da estética feminina em ampla expansão”.

 

Aumento de mortalidade cardiovascular durante a pandemia ressaltou ainda mais a importância da cardiologia

Cardiologista da Clínica Cray da Costa, Mario Cray destacou um dado importante de 2020: durante a pandemia, um estudo realizado em seis capitais brasileiras apontou um aumento de 132% nas mortalidades cardiosvasculares desde o início da quarentena. O estudo, apresentado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, ressaltou o óbvio: é impossível cuidar do coração apenas à distância.

Mais que isso: é seguro presumir que os índices de sedentarismo e hipertensão elevados por conta das restrições sociais também colaboraram para isso. “As pessoas com medo de irem aos hospitais de se contaminarem pelo vírus permaneceram em casa, retardando o atendimento e aumentando a mortalidade por doenças como o infarto do miocárdio e o acidente vascular encefálico (derrame cerebral)”, diz Cray.

Por outro lado, pondera o cardiologista, ficou evidente a importância de fatores de risco ligados às doenças cardiovasculares como hipertensão arterial e diabetes melito, que foram reconhecidos também como fatores de pior prognóstico em uma virose. “Isso tornou a cardiologia, que já era muito grande, em uma especialidade gigantesca: nunca foi tão importante manter a saúde cardiovascular”, enaltece.

 

“Bons profissionais médicos devem estar centrados no ser humano com uma preocupação que transcende a doença física focando na saúde integral, passando pelo psíquico, social e até espiritual” – Mario Cray, cardiologista da Clínica Cray da Costa

 

 

Pacientes idosos se consultaram menos com cardiologistas

Em Ponta Grossa, o atendimento cardiológico passou por uma redução de consultas dos pacientes mais idosos, reclusos, mas um aumento da preocupação de indivíduos de meia idade com a saúde. “O estresse gerado pelo isolamento e/ou problemas econômicos aumentou os transtornos de humor como ansiedade e depressão”, revela Cray. “Isso trouxe, em sua esteira, um aumento na incidência de hipertensão arterial que vem acometendo populações mais jovens, com possibilidade de resultados nefastos em longo prazo”.

As sequelas da Covid-19 também estão presentes no atendimento diário da Clínica Cray: cresceu o volume de pacientes recuperados do vírus com potenciais sequelas cardiovasculares, como insuficiência cardíaca e processos trombóticos.

“Será necessário, mais do que nunca, otimizar e reduzir custos na saúde. Muito se gasta atualmente com exames desnecessários ou com excesso de consultas com muitos profissionais. Bons profissionais médicos devem estar centrados no ser humano com uma preocupação que transcende a doença física focando na saúde integral, passando pelo psíquico, social e até espiritual. Promover saúde é diferente de tratar doenças e deve ser o objetivo maior na cardiologia, os profissionais que tiverem este diferencial vão se sobressair no futuro”, conclui Cray.

 

Quer destacar o seu trabalho com saúde na RPC? Fale com a gente!

 

Leia mais:

 

Aniversário de Curitiba: qual é a “cara” da capital paranaense na publicidade?

Artigos relacionados

0 respostas para “Dia Mundial da Saúde: após um ano de pandemia, médicos falam sobre mudanças e tendências que vieram para ficar”

Deixe uma resposta