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Comportamento

O que vem depois dos food trucks? Pode ser o antirrestaurante!

Iniciativas que exaltam a refeição como um ritual, pequenos negócios voltados a oferecer produtos específicos e serviços de jantares exclusivos se destacam e servem de alerta para quem quer investir na área

O atual clima de retração econômica preocupa muitos empresários e proprietários de restaurantes, cafés e bares em Curitiba. Alguns destes locais já optaram por diminuir o cardápio e trocar de público-alvo para oferecer serviços mais específicos. Outros estabelecimentos, ainda mais ousados, decidiram montar food trucks, enviar seus chefs ao exterior para trazer produtos e serviços diferenciados. O que vale é a criatividade.

O interessante nisso tudo é observar que, em paralelo a este setor mais consolidado, surgem novas dinâmicas na arte de preparar e servir refeições. Iniciativas voltadas ao compartilhamento de alimentos e outros pequenos negócios baseados em ambientes mais intimistas começam a se destacar na capital. O diferencial que garante o sucesso é encontrar um nicho próprio para crescer e combiná-lo ao conforto e praticidade.

A Caminho do Chá, por exemplo, nasceu da vontade da designer de chás Daniele Lieuthier mostrar um pouco do que aprendeu sobre a arte de preparar a bebida durante uma viagem ao mundo – que completou em nove meses. Após estudar o público-alvo e estabelecer uma identidade e missão para a marca, ela decidiu abrir seu próprio negócio, focado em oferecer um mergulho no universo dos chás. O produto é bastante específico, sem dúvida, mas o cuidado que Daniele teve ao investir em um espaço agradável, aconchegante e convidativo evita que o cliente se intimide. Pelo contrário, instiga a curiosidade de quem passa pelo local.

Caminho do Chá, em Curitiba, transformou o costume do chazinho em uma experiência completa
Caminho do Chá, em Curitiba, transformou o costume do chazinho em uma experiência completa

O segredo foi encontrar um equilíbrio entre o serviço diferenciado (e quase extinto na cidade) com um ambiente pequeno, caseiro e descontraído, onde você pode inclusive encontrá-la atrás do balcão. Apesar de adotar hábitos mais cautelosos em decorrência da crise, a clientela se mostra satisfeita em pagar a conta por lá.

Jantar servido no jardim de casa

Quem também optou por servir algo exclusivo aos clientes foi o chef Guilherme Kaesemodel. Ao contrário de Daniele, ele não é focado em apenas um produto específico. Formado pela Le Cordon Bleu, Guile já foi proprietário de um restaurante na capital, o italiano Forneria Belluna, que fechou as portas. Sem a intenção de parar com a gastronomia, o chef decidiu focar na ideia de eventos e há um ano criou uma cozinha moderna e intimista no jardim de sua casa, onde passou a receber pequenos grupos de 6 a 12 pessoas para uma experiência completa em jantares exclusivos.

O próprio chef prepara os pratos ao lado da mesa dos convidados, em uma cozinha americana charmosa e com cara de lar. Para garantir a satisfação de todos, Guile segue um briefing com base nas preferências do cliente. O ambiente oferece descontração, conforto e atenção exclusiva por um preço semelhante aos demais restaurantes na cidade, onde o atendimento e o cardápio são padronizados.

O chef Guile Kaesemodel prepara refeições para pequenos grupos (foto: arquivo pessoal)
O chef Guile Kaesemodel prepara refeições para pequenos grupos (foto: arquivo pessoal)

Guile deixou a divulgação de lado e confiou no boca a boca, que hoje já propicia uma média de dois eventos por final de semana, conforme ele mesmo colocou como objetivo. O bom momento ainda permitiu que ofertasse aulas para grupos pequenos de pessoas interessadas em uma culinária sem frescura e que “vira quase uma terapia”, como ele diz. “Uma das coisas que o meu público quer é a privacidade, eles sempre falam como é gostoso ‘não ter uma mesa do lado’. É quase como estar em casa, mas recebendo serviço diferenciado”, conta o chef, que percebeu a possibilidade desse modelo virar tendência de acordo com lugares semelhantes na Europa e Estados Unidos. “Essa interação direta com o cliente o faz se sentir acolhido e exclusivo”, aponta Guile.

O chef Guile Kaesemodel preparou um espaço no jardim de casa para oferecer jantares em clima de intimismo e exclusividade (foto: arquivo pessoal)
O chef Guile Kaesemodel preparou um espaço no jardim de casa para oferecer jantares em clima de intimismo e exclusividade (foto: arquivo pessoal)

Seguindo a mesma linha de desconstrução da gastronomia, o movimento dos antirrestaurantes, puertas cerradas ou underground restaurants (como preferir chamar) começa a ganhar força na capital paranaense. Eles basicamente funcionam assim: chefs ou pessoas com experiência e paixão por cozinhar organizam almoços ou jantares em suas próprias cozinhas, em casa mesmo, só que de uma maneira mais livre do que a que Guile se propõe. Não é chique, não é caro, não é gourmet. O cardápio geralmente é de escolha do anfitrião e o clima é mais informal, recebendo até mesmo pessoas que não se conhecem, já que os eventos acabam se difundindo pelas redes sociais ou boca a boca. A iniciativa é pequena, surge como uma alternativa e geralmente não visa crescimento financeiro ou disputa de mercado, mas serve como um bom alerta para quem quer investir no ramo da gastronomia: a procura por esses locais envolve principalmente o interesse das pessoas por quebrar paradigmas da alimentação, dar espaço ao caseiro, ao natural e resgatar o hábito de sentar-se à mesa, conversar enquanto observa a comida ser feita e depois compartilhá-la com outras pessoas, sem a correria do dia a dia.

Comida caseira para amenizar a correria do dia a dia (foto: Lucas Amorim/ Entre [amigos])
Comida caseira para amenizar a correria do dia a dia (foto: Lucas Amorim/ Entre [amigos])
Em Curitiba também se destaca o Entre[amigos], projeto que surgiu com objetivo semelhante. Apesar de não serem chefs ou terem estudado gastronomia anteriormente, os idealizadores Isadora Hofstaetter e Lucas Amorim já tinham o costume de se encontrar para fazer jantares em casa e com o tempo resolveram organizar almoços para amigos, conhecidos e interessados. Hoje eles já estão na 8ª edição do encontro, cobrando apenas R$ 25 por pessoa. O sucesso é garantido e Isadora afirma que a mesa de seis lugares disponível fica completa antes mesmo de divulgarem o cardápio. “As pessoas se sentem atraídas por vários motivos: a comida caseira, o bom preço, o saber quem está cozinhando, acompanhar parte do processo. Outro ponto: o ato de comer com quem se gosta é um ritual muito presente na nossa cultura e que na correria do cotidiano acaba se perdendo”, destaca Isadora.

Lucas Amorim e Isadora Hofstaetter, do Entre[amigos]: "tem sido um sucesso, temos as reservas fechadas antes mesmo de divulgar o cardápio"  (foto: Lucas Amorim)
Lucas Amorim e Isadora Hofstaetter, do Entre[amigos]: “tem sido um sucesso, temos as reservas fechadas antes mesmo de divulgar o cardápio” (foto: Lucas Amorim)
Jornalista por formação, Isadora acredita que apesar da ideologia por trás do projeto depender muito mais de uma pré-disposição social, os antirrestaurantes podem, sim, se tornar bons modelos de negócio. Afinal, despertaram no público o interesse por algo mais pessoal e caseiro. “Se quem vem aqui tem alergia a algum ingrediente, vou fazer uma comida sem este ingrediente para essa pessoa, como faria para um amigo. Quer tirar o sapato, tire. Quer trocar a música, troque. Recebemos as pessoas em minha casa e estamos mais preocupados em gerar bons momentos do que no lucro que esses almoços podem vir a gerar. Se chegar esse ponto, devemos pensar em abrir um restaurante talvez”, finaliza Isadora.

Quem também gosta da ideia é Guilherme Kaesemodel, que se mostrou entusiasmado ao falar dos antirrestaurantes e de serviços que apresentam propostas mais voltadas à exclusividade ou produtos diferenciados. “São iniciativas que estão conquistando espaço agora no Brasil e é interessante de se pensar para o público curitibano, que é naturalmente reservado, exigente, gosta de se sentir especial e se cuidar. Eu acho que qualquer projeto voltado a uma alimentação saudável e mais intimista tem muito potencial para funcionar bem por aqui“, acredita o chef.

Guile Kaesemodel: "é hora de focar em exclusividade" (foto: arquivo pessoal)
Guile Kaesemodel: “é hora de focar em exclusividade” (foto: arquivo pessoal)

O chef e consultor acredita que com a atual situação financeira os movimentos antirrestaurantes podem ajudar quem quer investir em gastronomia a compreender melhor o que o público quer. “Não se deve investir no mais do mesmo. O mais do mesmo têm dado errado. O mais do mesmo têm se batido para se manter em pé ou mesmo fechado. Agora é hora de focar na exclusividade, na qualidade e no atendimento mais pessoal”, finaliza Guile.

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1 respostas para “O que vem depois dos food trucks? Pode ser o antirrestaurante!”

  1. Liandra says:

    otima site, tudo bem organizado, excelente trabalho!

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